A Represa Billings é uma das paisagens mais marcantes da Região Metropolitana de São Paulo e, ao mesmo tempo, uma das mais mal compreendidas. Para quem passa pela Imigrantes ou pelo Rodoanel, ela é um espelho d’água entre morros. Para quem mora em Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, São Bernardo do Campo, Santo André ou Diadema, é lazer, paisagem, fonte de água e, muitas vezes, motivo de preocupação. Este guia reúne, em um só lugar, a história da represa, o seu papel na geração de energia, o abastecimento de água, a legislação que a protege e os problemas que ainda a ameaçam.
Uma represa criada para gerar energia, não para abastecer
A primeira surpresa para muita gente é que a Billings não nasceu para matar a sede da região. Ela foi construída para gerar eletricidade. A ideia está ligada ao engenheiro Asa White Kenney Billings (1876–1949), que trabalhava para a Light, empresa responsável pela energia de São Paulo na época. Segundo a Wikipédia, em 1923 ele propôs represar as águas do Rio Grande, também chamado de Jurubatuba, em vez de seguir o projeto anterior da companhia. O Diário do Grande ABC registra que o projeto é datado de 27 de março de 1925, data que o jornal tratou como o centenário da represa em 2025.
As obras avançaram em etapas. A barragem do Rio das Pedras começou em 1925 e a área foi inundada em 1927. Em 1937, a Light iniciou a barragem do Rio Grande. Na década de 1940 foram construídas as estações elevatórias de Pedreira e Traição, que bombeavam água para aumentar a vazão do sistema, uma decisão que trouxe sérias consequências ambientais, como veremos adiante. O nome Billings, em homenagem ao engenheiro, foi adotado em 1949, segundo o Sesc. Desde 1998, a operação da parte de geração está com a Emae, empresa sucessora da Light nessa área.
Como a água do planalto vira energia na Baixada Santista
O segredo do projeto está no relevo. A Billings fica no planalto, bem perto da borda da Serra do Mar. Do outro lado da serra está Cubatão. A água represada é desviada por um canal e despenca pela escarpa até a Usina Henry Borden, no pé da serra, aproveitando um desnível de cerca de 720 metros.

O complexo reúne duas casas de força, uma externa e outra subterrânea, com 14 grupos geradores no total. A usina subterrânea, de 1956, é citada pela Wikipédia em inglês com capacidade de cerca de 880 MW. Em declaração ao Diário do Grande ABC, Admilson Barbosa, da Emae, destacou a “importância estratégica e multifuncional” da represa.
Um reservatório de oito braços e números que variam conforme a fonte
A Billings tem formato bastante recortado, com oito braços principais: Rio Grande, Rio Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Bororé, Cocaia e Alvarenga. Ela banha, total ou parcialmente, os municípios de São Paulo, Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
Quando se trata de medir a represa, cada fonte traz um número diferente, em geral porque usam critérios distintos. O Diário do Grande ABC fala em cerca de 150 km² de espelho d’água e 463 km de margens. A Wikipédia em português cita 10.814 hectares (cerca de 108 km²), a versão em inglês indica 127 km², e um texto do Sesc menciona 106,6 km² e 995 milhões de metros cúbicos de água. Por isso, neste guia, usamos as cifras sempre com a fonte e evitamos cravar um único valor.

De onde vem a água que chega às torneiras do ABC
Embora tenha sido pensada para energia, a Billings passou a abastecer a população. Desde 1958, a captação pelo braço do Rio Grande fornece água para o consumo humano. Em 2000 entrou em operação a captação no braço do Taquacetuba. Esses são os dois únicos trechos da represa usados pela Sabesp para água potável: o restante do reservatório não é destinado ao consumo.
Para proteger o braço do Rio Grande, no início dos anos 1980 foi construída uma barreira que o separa do corpo principal da represa, separando-o do corpo principal. O sistema Rio Grande tem capacidade de cerca de 11,21 bilhões de litros, e a estação de tratamento produz aproximadamente 5,5 mil litros por segundo, atendendo São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema. Segundo a Sabesp, o conjunto abastece cerca de 1,4 milhão de pessoas. Outras publicações falam em 1,8 milhão ou “mais de 1 milhão”, diferença que também depende da forma de contar.
A poluição: um problema que começou nos anos 1950
O crescimento desordenado da região, principalmente entre as décadas de 1950 e 1970, levou esgoto doméstico, esgoto industrial e metais pesados para dentro da represa. Outro capítulo foi o bombeamento das águas do Rio Pinheiros para a represa. Em 1992, a reversão do Pinheiros para a Billings foi proibida e, segundo registros da Wikipédia, uma resolução de 2010 voltou a permitir o bombeamento em períodos de chuva intensa.
Em 13 de julho de 2009, o governador José Serra sancionou, em Rio Grande da Serra, a Lei Estadual nº 13.579, que define a Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais da Billings (APRM-B). A lei exige, entre outras medidas, a ligação das moradias à rede de esgoto e estabelece uma faixa de restrição de 50 metros a partir da cota máxima de operação. O advogado ambientalista Virgílio Alcides de Farias, do Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC, lembra que as águas da Billings são enquadradas nas classes 1 e 2, o que proíbe o lançamento de esgoto, inclusive tratado.
Os especialistas ouvidos pela imprensa são cautelosos. A professora Renata Maria Moreira, da UFABC, avalia que a melhora não será rápida. Já Farias alerta que, sem medidas, a área central da represa poderia se tornar um receptor poluído em cerca de 50 anos.
A Billings em 2026: esgoto, algas e a obra no Rio Pequeno
Duas notícias recentes mostram que a represa continua no centro do debate. A primeira trata da qualidade da água. Um relatório da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), encomendado pela Prefeitura de Rio Grande da Serra e elaborado em novembro de 2025, mapeou 16 pontos de descarte irregular de esgoto em corpos d’água que alimentam o braço do Rio Grande. O Índice de Qualidade da Água dos pontos foi classificado como “péssimo”. A prefeitura identificou mais de 30 áreas com lançamento direto de esgoto nos córregos, e 16 em situação crítica. A bióloga Marta Marcondes, da USCS, destacou a presença de muitos microrganismos causadores de doenças.
A reportagem do Diário do Grande ABC, de 27 de março de 2026, mostra também a resposta das autoridades. Segundo o prefeito Akira Auriani, a Sabesp se comprometeu a antecipar a universalização do tratamento de esgoto na cidade de 2030 para 2028, com R$ 400 milhões de investimento. A Secretaria estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) confirmou os pontos irregulares e informou que a Cetesb fiscaliza; a universalização do saneamento está prevista para 2029 no contrato de concessão. Em Santo André, um braço próximo ao Jardim Miami e Riviera apresenta forte concentração de algas, as chamadas macrófitas, que se multiplicam em ambientes muito poluídos, além de resíduos sólidos.

A segunda notícia é a transposição de águas do Rio Pequeno. Em 21 de janeiro de 2026, a Sabesp iniciou obras para ligar o sistema Billings ao Alto Tietê. O projeto prevê captar água nos braços do Rio Pequeno, em São Bernardo, e bombeá-la até a Represa Taiaçupeba, em Suzano, por uma tubulação de aço enterrada de cerca de 38,1 km, com captação de 4 mil litros por segundo e investimento de R$ 1,4 bilhão. O trajeto passa por Santo André, São Bernardo, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Suzano e Mogi das Cruzes.
A Sabesp afirma que a obra responde à escassez de chuva e faz parte do Plano de Segurança Hídrica, que vai até 2060. O diretor Marcel Costa disse que oito traçados foram analisados, que o escolhido é o mais adequado ambientalmente, segue por vias públicas e tem licença da Cetesb. A Semil informou que um estudo da FCTH, da USP, atesta a viabilidade da captação. Por outro lado, Marta Marcondes questiona o impacto sobre a vegetação, as nascentes que alimentam o braço do Rio Grande e a ausência de audiências públicas, e lembra que uma interligação emergencial feita em 2014–2015 teria assoreado cerca de 1 km desse braço. A Prefeitura de Rio Grande da Serra e o Conselho Municipal de Meio Ambiente também manifestaram preocupação, e o Semasa de Santo André apontou inconsistências técnicas no diagnóstico da Sabesp. É um debate em andamento, e vale acompanhar os desdobramentos.
Lazer, pesca e esportes: a Billings também é para aproveitar
Apesar dos problemas, a represa segue como um dos cenários de lazer mais valorizados da região, com prainhas, mirantes, restaurantes, pesca esportiva e esportes náuticos. Entre os peixes citados pelas fontes estão tilápias, lambaris, carpas e traíras. Para saber onde praticar vela, caiaque, stand up paddle e pesca, quais cuidados tomar e como chegar, leia nosso guia de esportes náuticos, pesca e lazer na Represa Billings.

Quem quiser transformar o passeio em um fim de semana completo pode combinar a represa com outros destinos próximos. Nosso guia completo de Ribeirão Pires traz atrações, gastronomia e roteiros, e o guia de Paranapiacaba mostra a vila inglesa na Serra do Mar, a poucos quilômetros de distância.
Resumo: o que você precisa saber sobre a Billings
- Origem: projeto de 1925, ligado à Light, para gerar energia na Usina Henry Borden, em Cubatão.
- Abastecimento: só os braços do Rio Grande (desde 1958) e do Taquacetuba (desde 2000) fornecem água potável.
- Municípios: São Paulo, Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
- Proteção: Lei Estadual nº 13.579/2009 (APRM-B), que exige coleta de esgoto e faixa de restrição.
- Desafios em 2026: lançamento irregular de esgoto, algas e a polêmica obra de transposição do Rio Pequeno.
Fontes consultadas
- Diário do Grande ABC – Criada para gerar energia, Billings hoje fornece água para a região
- Diário do Grande ABC – Billings completa 98 anos
- Diário do Grande ABC – Billings 101 anos: USCS mapeia 16 pontos de descarte irregular de esgoto
- Diário do Grande ABC – Sabesp inicia obras para transposição de águas do Rio Pequeno
- Diário do Grande ABC – Projeto da Sabesp envolvendo Billings ameaça abastecimento da região
- Wikipédia – Represa Billings e Billings Reservoir
- Sesc São Paulo – Represa Billings
- Migalhas – Governador de SP sanciona lei da Billings
Informações atualizadas até 23 de outubro de 2026. Dados de área, população atendida e andamento das obras podem mudar; confira sempre os órgãos oficiais.




























Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.